Jesus Landeira-Fernandez e Antônio Pedro de Mello Cruz
A interpretação psicobiológica da clínica psicológica: Por que a psicoterapia funciona?
Por que psicoterapeutas devem ter o direito de prescrever drogas psicotrópicas?[i]
Jesus Landeira-Fernandez - Psicólogo, mestre pelo Departamento de Psicologia da Universidade de São Paulo (USP), mestre pelo Departamento de Psicologia da Universidade da California em Los Angeles (UCLA), Doutor pelo Departamento de Psicologia da Universidade da California em Los Angeles (UCLA). E-mail: landeira@psi.puc-rio.br . Fotolog: http://www.fotolog.terra.com.br/landeira
Antônio Pedro de Mello Cruz - Psicólogo, mestre e doutor
em Psicologia (USP), psicobiólogo com interesse específico na
área de neurociências do comportamento. Atua em pesquisa básica,
investigando a relação bidirecional entre cérebro e comportamento
na modulação do medo/ansiedade e distúrbios correlacionados.
Possui trabalhos desenvolvidos e em andamento sobre a utilização
de modelos animais que expressam processos psicobiológicos relacionados
com a etiologia e fisiopatologia dos sintomas clínicos do estresse
e da ansiedade em humanos. O envolvimento de subtipos específicos de
receptores de serotonina (5-HT) em alguns desses processos tem sido atualmente
objeto de seus estudos. E-mail: apmcruz@unb.br
"Temos que ser pacientes e aguardar novos métodos e oportunidades de pesquisa. Devemos também estar prontos para abandonar um caminho que estivemos seguindo por certo tempo, se nos parece que ele não leva a um bom fim. Somente os crentes, que exigem que a ciência seja um substituto para o catecismo que o abandonaram, culparão um pesquisador por desenvolver ou mesmo modificar seus pontos de vista" Sigmund Freud (1920, pag. 85).
RESUMO
Este artigo teve como objetivo analisar os efeitos das psicoterapias em termos
de eventuais modificações ou restruturações na
comunicação sináptica entre neurônios. Discutiu-se
também a idéia de que os mecanismos envolvidos na alteração
do tecido neural produzidos pela psicoterapia são semelhantes aos observados
em manipulações biológicas diretas, como por exemplo,
nas terapias psicofarmacológicas. Argumentos que ilustram o fato de
que psicoterapias e drogas psicotrópicas produzem seus efeitos na atividade
mental humana a partir de mecanismos semelhantes são apresentados.
Questões neuroanatômicas e neurofisiológicas decorrentes
de uma interação bidirecional entre cérebro e comportamento
foram analisadas de acordo com uma abordagem interdisciplinar oferecida pela
psicobiologia. O presente artigo discutiu também a importância
do psicólogo ter uma boa formação a respeito do desenvolvimento
organização e funcionamento do sistema nervoso, visto que nele
reside não somente a origem da atividade mental, mas também
o objeto da sua prática. Mostrou-se que a aquisição de
conhecimento neurobiológico é fundamental para que o psicólogo
possa realmente compreender como ocorre essa interação entre
cérebro e meio ambiente. Finalmente, defendeu-se a idéia de
que o psicólogo clínico deve ter o direito para empregrar na
sua prática clínica esse conhecimento de ordem biológica
desde de que ele seja devidamente preparado nessa área.
INTRODUÇÃO
Não há dúvida que grande parte daqueles que buscam uma
formação profissional na área da psicologia, apresenta
interesse diretamente voltado para uma atuação clínica,
cujas teorias e técnicas, por via de regra, dispensam conhecimentos
detalhados da neurobiologia. Isso parece justificar parte do desinteresse
dos alunos e dos profissionais da psicologia pelas disciplinas de cunho biológico.
O objetivo deste trabalho é o de mostrar ao psicólogo clínico
a importância do conhecimento neurobiológico para a compreensão
dos efeitos produzidos na prática clínica e da necessidade do
fortalecimento do ensino dessas disciplinas durante o curso de psicologia.
Um dos principais motivos que justifica o ensino de disciplinas biológicas
ao estudante de psicologia é o de que a prática clínica
psicológica leva a uma melhora de uma disfunção mental
que perturba um determinado indivíduo graças ao poder que a
psicoterapia tem em produzir restruturações sinápticas
previamente estabelecidas. Embora alguns possam ficar surpresos, iremos, ao
longo deste texto, mostrar ao leitor que toda atividade mental humana tem
um substrato material, posição essa denominada de materialismo
emergente (Bunge, 1980: Kovács,1997; Searle, 1987) e que toda forma
de psicoterapia, por mais imaterial ou espiritual que possa parecer, age em
tecido nervoso, alterando o padrão da comunicação neural
da mesma forma que drogas psicotrópicas são capazes de alterar
a atividade mental de um indivíduo. Essa idéia não é
nova (ver, por exemplo, Brandão, 1995: Biondi, 1995; Eisenberg, 1995;
Gabbard, 1992; Lewis, 1994; Tresan, 1996) e tem sido colocada pelo neurobiólogo
Eric Kandel (1979) da seguinte forma: "eu gostaria de levantar uma idéia
simplista, mas talvez relevante, segundo a qual o nível final de resolução
para a compreensão de como a intervenção psicoterapêutica
funciona é idêntica ao nível com que nós estamos
atualmente buscando entender como intervenções psicofarmacológicas
funcionam - ao nível individual de células nervosas e suas conexões"
(pag 1028). Mas antes de entrarmos nas questões centrais deste trabalho,
gostaríamos de definir o que entendemos por atividade mental e qual
a função da psicoterapia na vida psicológica do sujeito.
A noção de mente é figura central tanto na ciência
como na prática psicológica. Dada a dificuldade em se encontrar
consenso em torno de uma única definição da mente humana,
pode-se buscar algumas características que a compõem, formulando-se
assim uma espécie de definição operacional. Estudos antropológicos
mostram que certas características mentais, tais como crenças,
mitos, desejos, fantasias, vontades, emoções, pensamento, consciência
e a utilização de uma linguagem simbólica, vêm
sendo compartilhadas por todos os indivíduos da espécie humana
desde sua origem e de forma independente da cultura em que estiveram inseridos
(Chomsky, 1968; Eibl-Eibesfeld, 1972; Ekman, Sorenso & Friensen, 1969;
DaMatta, 1981; Lévi-Strauss, 1970). Esses dados parecem indicar que
a mente humana é composta por certas estruturas comuns a todos os seres
humanos e sempre presentes nas mais variadas culturas. Variações
específicas dessas estruturas, ou características universais
que formam a mente humana, definem a atividade psicológica do indivíduo
e é exatamente isso que dá forma a sua personalidade e individualidade.
Calcado nesta definição, a psicologia, tal como ciência,
deve buscar compreender o desenvolvimento, a organização e o
funcionamento dessas estruturas ou características que compõem
a mente humana para que técnicas ou procedimentos terapêuticos
possam ser desenvolvidos e incorporados à sua prática clínica.
No entanto, esse caminho tem sido o inverso. Tipicamente, técnicas
surgem primeiro, graças a genialidade ou a intuição do
terapeuta e a partir daí surge a necessidade do desenvolvimento de
um corpo teórico capaz de acomodar essa prática psicoterápica.
Este problema não é exclusivo da psicologia. Por exemplo, o
homem já praticava a engenharia antes do surgimento da física.
Praticava também a medicina antes da origem da biologia. Da mesma forma,
a odontologia, veterinária, agronomia, farmacologia e tantas outras
práticas surgem muito antes da origem das ciências que determinaram
os seus respectivos avanços. A regra é a de que a prática
de uma dada atividade humana precede a origem da sua ciência. Assim,
a prática psicológica precede a origem da psicologia como ciência.
Em pouco menos de um século de psicologia, os modestos avanços
teóricos na área não foram suficientes para explicar
a natureza multifatorial da atividade mental humana e suas desordens. O que
sustenta então a prática clínica? Independente das causas
responsáveis pela origem da disfunção mental (endógena
ou exógena), não há quem possa duvidar que a psicoterapia
consiste numa prática cujo propósito é o de aliviar o
sofrimento psicológico do seu semelhante. Embora ampla, esta definição
parece ser compartilhada por vários profissionais da área. Por
exemplo. o psicanalista Sérvulo Augusto Figueira (1976) define psicoterapia
como "todos os recursos que uma sociedade põe à disposição
de sujeitos que estão doentes ou que, por diversos motivos, atravessam
períodos críticos de vida.... A categoria é ampla, subsumindo
práticas como medicina, psicanálise, umbanda, etc...."
(pag 39). Assim, é bem provável que as raízes da psicologia
clínica tenham surgido com a própria origem da humanidade. Sociedades
pré-históricas já apresentavam a figura de um curandeiro
ou xamã que através de suas práticas buscavam restaurar
o equilíbrio psicológico de um determinado indivíduo.
Dentre essas práticas constavam cerimônias elaboradas, danças,
cantos, batidas de tambores, gritos, uso de sinais mágicos, encantos,
magias e feitiços. O objetivo desses rituais era livrar o paciente
de espíritos demoníacos que teriam possuído sua alma.
O modelo explicativo que justificava essas práticas baseava-se no pensamento
mágico e religioso, onde a disfunção mental seria resultado
de forças sobrenaturais, como por exemplo a presença de espíritos
ou deuses aborrecidos pela quebra de um tabu. Interessante notar que essas
práticas primitivas pareciam eficazes em atingir seus objetivos (Laplantine,
1991; Lévis-Strauss, 1970). Por exemplo, em certas culturas africanas
o curandeiro tratava as doenças mentais com certo sucesso através
de um complexo cerimonial em que o paciente era submetido a padrões
repetidos de dança marcados pela batida rápida de tambores que
eventualmente produziam um estado de transe, caracterizado por movimentos
automáticos e convulsões histéricas, seguidos por um
estado de calma e relaxamento.
Embora a utilização dessas técnicas tenha sido gradativamente
abandonada ao longo do tempo, pode-se, ainda hoje, encontrar alguns de seus
resquícios com a mesma função terapêutica. A psicóloga
social Monique Augras (1995), em seus estudos sobre religiões afro-brasileiras,
vem destacando a importância do pai de santo na regulação
da vida psicológica daqueles que participam dessas religiões.
O próprio antropólogo francês, Claude Lévi-Strauss
(1970), em seus ensaios sobre a importância dos ritos nas várias
sociedades humanas, classificou a prática psicanalítica como
"forma moderna de xamanismo".
Além da função terapêutica encontrada nas religiões
afro-brasileira, e que sem dúvida podem ser estendidas a outras formas
de religiões (Quintana, 1994), estão as psicoterapias alternativas.
Essas práticas têm se tornado tão populares que o Conselho
Federal de Psicologia, através da resolução publicada
no Diário Oficial de 30 de Janeiro de 1996, proibiu, sob pena do psicólogo
ter seu registro cassado, a prática de dezenas dessas terapias. Independente
da sua eficácia (que obviamente deve ter alguma, caso contrário
não seriam tão populares), isso revela ainda hoje, a existência
de uma grande tendência em se acreditar que a prática psicológica
esteja calcada em algo incorpóreo ou imaterial. Assim, nada mais natural
do que teorias psicológicas postulando uma atividade mental como algo
que independe de qualquer mecanismo biológico. Esta posição
teórica, por sua vez, reforça a idéia de que se a atividade
mental independe de uma atividade física, então somente intervenções
de natureza imaterial têm o poder de alterá-la. Em contraste
com essa posição está a da psiquiatria que, embora compartilhe
com a psicologia clínica a mesma origem, desenvolveu-se de forma diferente
junto com a prática médica. Como a medicina está ligada
a uma prática que privilegia intervenções físicas
no corpo de um indivíduo, a psiquiatria, adotando essa mesma postura,
desenvolveu procedimentos físicos capazes de alterar ou reparar o funcionamento
da atividade mental. Assim, teorias psiquiátricas de cunho biológico
postulam que a atividade mental depende exclusivamente de uma atividade física
ou orgânica do indivíduo. Por conseguinte, se a atividade mental
é produto de uma atividade física, somente intervenções
físicas têm o poder de alterar o seu funcionamento.
A própria demanda atual do mercado parece se comportar segundo esses
princípios. Pacientes com disfunções na atividade mental,
onde aparentemente nada de orgânico pode ser localizado, procuram ou
são encaminhados para psicólogos. Pacientes com disfunções
na atividade mental, onde uma causa orgânica pode ser apontada, procuram
ou são encaminhados para psiquiatras. A divisão chega a tal
ponto que não seria exagero dividir a atuação do psicólogo,
como já mencionado acima, numa área da atividade mental mais
mística, mágica ou misteriosa, enquanto a atuação
do psiquiatra numa área da atividade mental mais concreta ou objetiva.
O presente trabalho pretende chamar atenção para essa falsa
dicotomia. A atividade mental não é algo metafísico.
A posição dualista, vem se tornando cada vez mais difícil
de ser sustentada dado ao acúmulo de conhecimento sobre o desenvolvimento,
a organização e o funcionamento do sistema nervoso. Existe hoje
um verdadeiro exército de pesquisadores que vem promovendo avanços
nunca vistos em torno desse campo de estudo. São esses avanços
que levam a crer que toda e qualquer atividade mental
humana tem um substrato neural e que essa atividade neural é produto
da sua relação com o seu meio ambiente. Dessa forma,
a posição cartesiana que um dia serviu como ponto de partida
para impulsionar o desenvolvimento da psicologia como um todo, vem hoje contra
a posição da psicobiologia, sobretudo em sua ramificação
na assim chamada neurociência e comportamento, que busca compreender
como se dá a relação cérebro-comportamento-atividade
mental.
POR QUE A PSICOTERAPIA FUNCIONA
?
A psicobiologia consiste numa intercessão entre várias disciplinas,
todas com o mesmo objetivo de compreender o desenvolvimento, a organização
e o funcionamento do sistema nervoso e sua relação com a atividade
mental. O grande propósito deste campo de pesquisa é integrar
conhecimentos, muitas vezes produzidos de forma independente, da biologia,
com os seus desdobramentos na neuroanatomia, neurofisiologia e neurofarmacologia,
com os da psicologia e seus desdobramentos na psicologia experimental, psicofisiologia,
psicofarmacologia e psicologia cognitiva. Esta convergência de conhecimento,
que vai desde a neurobiologia molecular até a psicologia cognitiva,
vem proporcionando a utilização sistemática do método
científico para a compreensão da atividade mental humana. Mais
importante é o grande interesse e a motivação frente
a possibilidade do descobrimento dos mistérios da última fronteira
do conhecimento humano. É a mente descobrindo os mistérios da
própria mente.
Se, por um lado, esse campo vem gerando uma grande produção
científica por parte de pesquisadores de diferentes áreas, por
outro lado a aplicação dos seus princípios e conhecimentos
à prática psicológica ainda é lenta e cuidadosa.
Isto talvez se deva à antiga crença de que a psicoterapia tem
o poder de promover alterações na atividade mental através
de forças imateriais, enquanto que o sistema nervoso, formado por matéria,
é rígido, inato e determinado biologicamente. No entanto, essa
crença parece ser infundada. O sistema nervoso
é extremamente plástico e seu desenvolvimento depende amplamente
do seu relacionamento social. Assim, o psicólogo clínico deve
ter consciência que a psicoterapia tem um efeito na atividade mental
do paciente graças a sua capacidade de promover uma transformação
no funcionamento da atividade neural do sujeito. Em outras palavras, a psicoterapia
funciona porque altera o funcionamento de áreas específicas
do cérebro através da modificação de padrões
de comunicação neural. Dada a importância dessa
afirmação, vale a pena analisarmos algumas qualidades do nosso
cérebro para que, em seguida, algumas evidências que sustentam
essa posição sejam apresentadas.
O cérebro, assim como qualquer outro órgão, é
formado por células. Dentre essas células estão os neurônios
responsáveis por todo sistema de transmissão de informações.
Estima-se que o sistema nevoso humano contenha algo em torno de 50,000,000,000
(cinquenta bilhões) a 100,000,000,000 (cem bilhões) de neurônios
(Hubel, 1979; Lent, 1982)[iv]. Embora exista uma grande variação
na forma, tamanho e tipo de célula nervosa, todas elas apresentam um
corpo celular, vários dendritos, um único axônio e vários
terminais neurais. O corpo celular contém o núcleo do neurônio,
toda a aparelhagem necessária para a síntese de enzimas e outras
moléculas essenciais para a vida do neurônio. Do corpo neuronal
surgem os dendritos, que são delicadas projeções que
se espalham nas mais diversas direções formando uma espécie
de arborização em torno do corpo celular. Uma dessas projeções
mais fina e mais longa constitui o axônio, cuja função
é totalmente diferente dos dendritos e do próprio corpo neuronal.
Finalmente, os terminais neurais são ramificações finais
do axônio.
Uma das propriedades mais fantásticas do neurônio é sua
capacidade de usar sinais elétricos para se comunicar. Esta habilidade
deriva da sua membrana ser diferentemente permeável a certos tipos
de íons carregados eletricamente com carga positiva (cátions)
ou negativa (ânions). Como a membrana é seletiva à entrada
desses íons, ocorre uma distribuição desigual de cargas
elétricas entre o exterior e o interior do neurônio, criando-se,
assim, um potencial elétrico ao longo da membrana. Dessa forma, um
neurônio, quando em repouso, está constantemente polarizado (algo
em torno de -60 a -90 milivolts). Dois tipos de canais para esses íons
estão localizados na membrana do neurônio: um tipo de canal,
geralmente encontrado ao longo do axônio e dos terminais neurais, é
ativado eletricamente, sendo sensível à variação
da voltagem. O outro tipo de canal, geralmente encontrado no corpo celular
e nos dendritos, é ativado quimicamente, sendo sensível a moléculas
químicas dos neurotransmissores. Os canais sensíveis aos mensageiros
químicos são importantes para iniciar o sinal elétrico
através dos potenciais pós-sinápticos, enquanto os canais
sensíveis à voltagem são importantes para a transmissão
do sinal elétrico através do potencial de ação.
Por esse mecanismo, a comunicação elétrica que ocorre
ao longo do neurônio pode ser dividida em duas formas funcionalmente
diferentes: uma do tipo somatório que ocorre nos dendritos e no corpo
celular, e a outra do tipo tudo-ou-nada, encontrada ao longo do axônio
e dos terminais neurais. Nos dendritos e corpo celular ocorre uma integração
neural, onde os potenciais pós-sinápticos excitatórios
(despolarização do potencial de repouso) e os potenciais pós-sinápticos
inibitórios (hiperpolarização do potencial de repouso)
são somados até convergirem a uma área de junção
entre o axônio e o corpo celular. Nessa área, denominada de zona
de disparo, potenciais de ação têm origem desde que um
certo limiar elétrico seja alcançado. A propagação
do potencial de ação ao longo do axônio é do tipo
tudo-ou-nada. Uma vez disparado, nada mais tem a capacidade de alterá-lo.
Graças a essa propriedade do potencial de ação, o sinal
é transmitido de forma rápida e fidedigna, evitando qualquer
perda ou interferência nesse sinal ao longo do axônio. Por exemplo,
alguns neurônios podem transmitir um potencial de ação
numa velocidade de 120 metros por segundo[ii], fato esse extremamente importante
uma vez que existem neurônios cujo axônio pode alcançar
1 metro de comprimento.
A comunicação entre dois ou mais neurônios se dá
através da sinapse. Embora existam sinapses elétricas, a forma
mais comum de comunicação entre dois neurônios é
química. Basicamente, o potencial de ação, ao chegar
no terminal neural, causa a liberação de um ou vários
neurotransmissores na fenda sináptica que se junta a receptores específicos
situados tanto no neurônio pré-sináptico como no neurônio
pós-sináptico (para uma revisão sobre os processos envolvidos
na liberação do neurotransmissor pelo neurônio pré-sináptico,
ver Bartfai, Iverfeldt, Fisone & Serfozo, 1988; Matthews, 1996). A combinação
do neurotransmissor com os receptores pós-sinápticos ativa canais
iônicos e modifica a polaridade elétrica da membrana. Neurotransmissores
excitatórios despolarizam a membrana através da formação
de um potencial pós-sináptico excitatório ao passo que
neurotransmissores inibitórios hiperpolarizam a membrana através
da formação de um potencial pós-sináptico inibitório.
A combinação do neurotransmissor com os receptores pré-sinápticos,
também chamados de autoreceptores, não ativa qualquer canal
iônico, não produzindo assim qualquer variação
no potencial elétrico da membrana. Os autoreceptores parecem estar
envolvidos na regulação do processo da neurotransmissão
sináptica através de alterações na velocidade
de síntese e da liberação do mensageiro químico.
Finalmente, mecanismos de recaptação do neurotransmissor pelo
neurônio pré-sináptico ou de destruição
do neurotransmissor através de enzimas encontradas na fenda sináptica,
terminam o processo da neurotransmissão química entre neurônios.
Além da excitação ou inibição do neurônio
pós-sináptico, podemos encontrar mecanismos de modulação
sináptica que não envolvem qualquer tipo de despolarização
ou hiperpolarização. Neste caso, observa-se um tipo de sinapse
onde ambos os neurônios pré e pós-sinápticos são
formados por terminais neurais ou por axônios bem próximos ao
terminal neural. Neste tipo de sinapse não ocorre qualquer tipo de
integração neural, uma vez que potenciais pós-sinápticos
não são originados. O que ocorre é uma modulação
do neurônio pré-sináptico sobre a liberação
de neurotransmissor pelo neurônio pós-sináptico. Se no
neurônio pós-sináptico houver uma redução
na liberação do neurotransmissor trata-se de uma inibição
pré-sináptica. Se houver um aumento de liberação
do neurotransmissor trata-se de uma facilitação pré-sináptica.
Outra forma de modulação envolvida na transmissão sináptica
é a liberação de neuromoduladores pelo neurônio
pré-sináptico, cujas características são completamente
diferentes daquelas dos neurotransmissores tradicionais. Por exemplo, muitos
desses neuromoduladores agem em neurônios pós-sinápticos
situados longe do local de onde foram liberados e por um longo período
de tempo que pode chegar até algumas horas. Mais ainda, o efeito desses
neuromoduladores no neurônio pós-sináptico pode ser totalmente
diferente da excitação ou inibição produzida por
neurotransmissores tradicionais. Por exemplo, neuromoduladores podem produzir
uma elevação do limiar para a produção do potencial
de ação ou alterar a resposta natural de um neurotransmissor,
sem, contudo, causar efeito no potencial de repouso do neurônio pós-sináptico
(Shepherd, 1988).
Uma terceira forma de modulação apontada recentementeé
a participação dos gases óxido nítrico e do monóxido
de carbono na comunicação sináptica (Snyder & Dawson,
1995; Varma, Hirsch, Glatt, Ronnett & Snyder, 1993; Zhang & Snyder,
1995). Estes gases solúveis parecem ter um mecanismo próprio
de ação no que se refere tanto a sua liberação
quanto a produção do seu efeito. O óxido nítrico
e o monóxido de carbono não são armazenados em vesículas
sinápticas e são sintetizados à medida que são
utilizados. Mais interessante, esses gases não produzem seus efeitos
através da ligação com um determinado receptor. Eles
simplesmente penetram nos neurônios vizinhos por difusão e ai
então produzem seus efeitos. Esta forma um tanto surpreendente de modulação
pode alterar radicalmente a forma de compreensão da comunicação
sináptica.
Essa riqueza encontrada na comunicação sináptica deve-se
ao fato de um único neurônio pós-sináptico receber
informação de vários neurônios pré-sinápticos.
Visto que o neurônio pré-sináptico é formado por
vários terminais neurais e o neurônio pós-sináptico
por vários dendritos, podem existir milhares de sinapses. Por exemplo,
um neurônio pós-sináptico recebe algo em torno de 1.000
(mil) a 10.000 (dez mil) sinapses de mais ou menos 1.000 (mil) neurônios
pré-sinápticos (Stevens, 1979). Dessa forma, em apenas 1 mm3
de tecido neural, onde existem em torno de 100,000 (cem mil) neurônios,
haveriam aproximadamente 1,000,000,000 (um bilhão) de sinapses funcionando
ao mesmo tempo (Braitenberg & Schutz, 1991). Para que toda essas informações
não sejam confundidas, vários mensageiros químicos podem
ser utilizados ao mesmo tempo, e uma vez liberados, eles irão agir
somente no local onde houver receptores específicos. As exceções,
são os casos do óxido nítrico e do monóxido de
carbono, uma vez que não existem receptores específicos para
esta nova classe de "neurotrasmissores". Como já mencionado
anteriormente, estes gases produzem seus efeitos de forma indiscriminada em
todos os neurônios próximos ao local onde eles foram liberados.
Uma das principais conseqüências de toda essa confluência
química envolvida na comunicação neural é a possibilidade
de alteração do sinal elétrico que está sendo
transmitido através da fenda sináptica. É justamente
esta alteração do sinal elétrico que dá origem
à nossa vida psicológica. Como já definido, as características
ou estruturas da mente humana são comuns à nossa espécie.
Isto porque, dado o nosso material genético, todos nós produzimos
o mesmo sistema nervoso. No entanto, variações específicas
na transmissão do impulso nervoso, através da atividade sináptica,
definem a atividade psicológica do indivíduo, e é exatamente
isso que dá forma a sua personalidade e individualidade (vide definição
de atividade psicológica apresentada na introdução).
Como antecipou o psicólogo experimental americano, Donald Hebb (1949),
é justamente na transmissão sináptica que ocorrem processos
plásticos produzidos pela interação do sujeito com seu
meio, no sentido de que sinapses podem ser alteradas, tornando-se mais fortes
ou mais fracas.
Um desses processos capazes de alterar o funcionamento sináptico é
o fenômeno da potenciação de longo prazo. Este fenômeno
refere-se a um aumento da atividade sináptica por um longo período
de tempo produzido através de uma descarga neuronal intensa. Essa forte
estimulação pode ser reproduzida no ambiente através
da apresentação de um estímulo com alto valor biológico,
como por exemplo, a apresentação de um choque elétrico
(Landeira-Fernandez, Fanselow, DeCola & Kim, 1995). Tem sido demonstrado
que a formação da memória de longo prazo (Davis, Butcher
& Morris, 1992; Kim, DeCola, Landeira-Fernandez & Fanselow, 1991;
Miserandino, Sananes & Davis, 1990; Phillips & LeDoux, 1992), mas
não a de curto prazo (Kim, Fanselow, DeCola, & Landeira-Fernandez,
1992), é mediada através de um mecanismo de potenciação
de longo prazo. Assim, é possível que a formação
dessa variável psicológica, importante em qualquer forma de
psicoterapia, possa estar relacionada a um processo de fortalecimento sináptico.
No entanto, psicoterapia envolve muito mais do que memória. Na verdade,
grande parte das técnicas psicoterápicas baseia-se no diálogo.
Dessa forma é importante determinar como o sistema nervoso percebe,
sente e responde à linguagem. A palavra falada é um som que
é decodificado em impulso elétrico através de receptores
específicos situados no interior do ouvido, mais especificamente na
cóclea [v]. Através do nervo coclear, esses impulsos entram
no sistema nervoso central e fazem sua primeira sinapse no núcleo coclear.
A partir daí, surge um novo sistema de fibras com projeções
para várias estruturas localizadas no tronco encefálico, cerebelo
e diencéfalo. Dentre essas estruturas para a qual o núcleo coclear
se projeta está o corpo geniculado medial, que através de projeções
para o córtex auditivo primário completa o trajeto da via sensorial
auditiva (Carpenter e Sutin, 1983; Machado, 1993). É aí que
o sujeito toma consciência da presença de um som, embora sua
compreensão como algo que carrega um significado específico
somente ocorra quando o impulso neural é transmitido do córtex
auditivo primário para a área de Wernicke, localizada no hemisfério
cerebral esquerdo. Curiosamente essa mesma área cortical no hemisfério
direito fornece o caráter emocional da musicalidade da palavra (Borod,
Andelman, Obler, Tweedy & Welkowitz, 1992; VanStrien & Morpurgo, 1992).
Projeções dessas áreas com outras áreas corticais
adjacentes produzem percepções associadas a memórias
com essa palavra.
A relação entre o funcionamento dessas estruturas corticais
com a atividade mental produzida pela linguagem pode ser observada através
de sofisticadas técnicas de neuroimagens. A partir dessas técnicas,
vários neuropsicólogos têm verificado a existência
de uma especialização cortical envolvida com o reconhecimento
de palavras, compreensão do seu sentido semântico e a habilidade
de converter pensamentos em palavras (Damasio & Geschwind, 1984; Frith,
Friston, Liddle & Frackowiak, 1991; Geschwind, 1979; Kosslyn, Alpert,
Thompson, Malijkovic, Weise, Chambris, Hamilton, Raush & Buonanna, 1993;
Petersen, Fox, Posner & Raichle, 1988). No entanto, não se sabe
ao certo como essas áreas corticais alteram o funcionamento de outras
estruturas neurais relacionadas com a percepção, a emoção,
a memória ou a cognição. Sabe-se, porém, através
de observações com essas técnicas de neuroimagens, realizadas
pelo psiquiatra Lewis Baxter e associados (Baxter, Schwartz, Bergman, Szuba,
Guze, Mazziotta, Alazraki, Selin, Ferng, Munford & Phelps, 1992; Schwartz,
Stoessel, Baxter, Martin & Phelps 1996), que terapias
exclusivamente psicológicas em pacientes obsessivos-compulsivos produzem
alterações cerebrais semelhantes a terapias biológicas
calcadas na prescrição de drogas psicotrópicas.
Em um desses estudos (Baxter, Schwartz, Bergman, Szuba, Guze, Mazziotta, Alazraki,
Selin, Ferng, Munford & Phelps, 1992) um grupo de pacientes foi tratado
exclusivamente com fluoxetina (Prozac, inibidor da recaptação
da serotonina) na dose de 20 mg diária aumentando-se gradativamente,
conforme o caso específico, para uma dose máxima de 80 mg por
dia. Outro grupo de pacientes foi exclusivamente tratado com terapia cognito-comportamental
com sessões de 1 hora de duração 1 ou 2 vezes por semana.
Técnicas de prevenção de resposta juntamente com várias
técnicas cognitivas foram utilizadas. Pacientes do grupo controle não
foram submentidos a qualquer forma de terapia. Após um período
em torno de 10 semanas observou-se, através de tomografias por emissão
de pósitrons, uma redução específica na atividade
no núcleo caudado do hemisfério direito em relação
à atividade desse núcleo antes do início do tratamento
psicológico ou farmacológico. Essa redução da
atividade do núcleo caudado do hemisfério direito observada
tanto nos pacientes submetidos ao tratamento com farmacológico bem
como o psicológico foi maior em relação a pacientes controles
que não foram submetidos a qualquer forma de terapia. Assim, tanto
a psicoterapia quanto a psicofarmacoterapia produziram exatamente as mesmas
alterações neuronais sugerindo que ambas funcionaram através
de mecanismos semelhantes. Neste caso específico, manipulações
químicas ou comportamentais parecem alterar o funcionamento de certos
sistemas serotonérgicos.
Resultados provenientes da utilização de modelos animais apontam
para a mesma direção. Como animais não são capazes
de utilizar linguagem, sons são utilizados com o intuito de estudar
o sistema auditivo. Tem sido observado, através de registros eletrofisiológicos
em um único neurônio em gatos conscientes, que neurônios
localizados no núcleo coclear dorsal apresentam alterações
de forma específica a um som que sinaliza a apresentação
de um estímulo aversivo (Landeira-Fernandez, Woody, Wang, Chizhevsky
& Gruen, 1991; Woody, Wang, Gruen & Landeira-Fernandez, 1992). Estes
resultados, somados a outros tantos que relacionam a influência das
relações sociais ao desenvolvimento, organização
e desenvolvimento de circuitos neuronais envolvidos nas mais diversas atividades
mentais (Andrew & Brennan, 1983; Arnold, Botjer, Nordeen, Nordeen &
Sengelaub, 1987; Denenberg, 1981; Elbert, Pantev, Wienbruch, Rockstroh &
Taub, 1995; Harlow, Dodsworth & Harlow, 1965; McCabe & Horn, 1988;
Purves & LaMantia, 1990; Jenkins, Merzenich, Ochs, Allard & Guic-Robles,
1990; Kandel & Hawkins, 1992; Volkmar & Greenought, 1972; Ward, 1972;
Wiesel & Hubel, 1963), têm mostrado que essa influência ocorre
desde o nascimento do sujeito e que existem períodos críticos,
durante a infância, onde o impacto da experiência social no tecido
neural é extremamente mais forte em relação a idades
mais avançadas.
Assim, várias formas de relacionamento social, bem como a psicoterapia,
alteram o funcionamento mental de um indivíduo através do seu
impacto no tecido neural. É importante frisar que esta posição
não descarta outras interpretações que relacionam aspectos
sociais com a atividade mental. Ela apenas interpreta fenômenos psicológicos
sob a ótica biológica. No entanto, deve-se reconhecer que aspectos
sociais atuam na atividade mental graças a capacidade dessas relações
em modificar o padrão de funcionamento neural. O neuroetólogo
Russel Fernald, da Universidade de Oregon, mostra como pode ocorrer essa interação
cérebro-comportamento-ambiente, utilizando uma espécie de peixe
ciclídeo africano (Fernald, 1988). O sistema social nessa espécie
baseia-se na dominância de territórios. Os machos dominantes
correspondem a mais ou menos 10% da população, controlando praticamente
todos os recursos, especialmente alimentos. Tais machos são de coloração
viva, e pouco tempo depois da dominação do território
seus testículos crescem. Subseqüentemente, regiões próximas
à áreas análogas do hipotálamo humano desenvolvem-se
mais. Esse núcleo passa a ser maior nos animais bem sucedidos socialmente,
de forma que o cérebro pode, por assim dizer, espelhar seu sucesso
social. Mais surpreendente ainda é o fato de que se, por algum motivo,
esse macho perde sua dominância territorial, o núcleo correspondente
muitas vezes também regride de tamanho.
Dessa forma, não existe nada de estranho no fato de que relações
sociais tem o poder de alterar o funcionamento neural. Resta saber, agora,
que relações sociais presentes na psicoterapia tem essa função.
Nesse sentido, é interessante observar que a presença de variáveis
de grande significado biológico para o paciente durante uma sessão
psicoterapeutica é um ponto comum entre as mais variadas formas de
psicoterapia. Conforme discutido anteriormente, estímulos ambientais
ou sociais com alto valor biológico podem fortalecer transmissões
sinápticas (para uma discussão sobre alguns paradigmas experimentais
mediados pelo mecanismo de potenciação de longo prazo ver Landeira-Fernandez,
1996; Martinez & Derrick, 1996). Assim, não é difícil
entender porque toda uma grande variedade de práticas psicoterapêuticas
seja capaz de oferecer algum resultado, a despeito dos seus mais variados
modelos explicativos. Quanto mais forte for o significado biológico
da prática psicológica, maior será a possibilidade dessa
psicoterapia em atingir seus objetivos através do seu impacto no tecido
neural, alterando, assim, padrões de comunicações sinápticas.
POR QUE PSICOTERAPEUTAS DEVEM
TER O DIREITO DE PRESCREVER DROGAS PSICOTRÓPICAS ?
Dada a importância do sistema nervoso na atividade mental, é
necessário que se dê mais ênfase a essa forma de conhecimento
durante a formação do psicólogo clínico. Mas o
simples interesse teórico não justifica essa decisão.
O saber por saber não oferece muita vantagem ao psicólogo clínico,
cujo maior interesse está ligado à prática. Assim, não
é surpreendente observar uma grande falta de motivação
de alunos e profissionais da área da psicologia pelo estudo de variáveis
biológicas relacionadas com a atividade psicológica humana.
A fim de suprir essa carência motivacional,
é também nosso objetivo chamar a atenção do psicólogo
clínico para o fato de que sua prática pode e deve ser
enriquecida através da aquisição de conhecimento e treinamento
necessário para o emprego de drogas psicotrópicas. Entre as
várias razões que justificam esse direito está o grande
avanço que a psicofarmacologia vem conquistando graças à
pesquisa básica, que conta, inclusive, com grande
participação de pesquisadores com formação em
psicologia. Outra razão importante é que drogas psicotrópicas,
bem como as psicoterapias, parecem atuar de forma semelhante no sistema nervoso
central. Tanto a psicoterapia como as drogas psicotrópicas, como veremos
em seguida, alteram o funcionamento da atividade mental devido a capacidade
que ambas têm de alterar o curso da comunicação neural.
Finalmente, tem sido amplamente demonstrado que o efeito de uma droga psicotrópica
é determinado não somente pelo seu composto ativo como também
pelo contexto social em que essa droga é administrada. Mas
antes de entrarmos nos aspectos de interação entre drogas e
relação social, vejamos como drogas psicotrópicas agem
no sistema nervoso.
Ao longo da história da humanidade, o homem descobriu que podia utilizar
substâncias químicas encontradas em plantas e animais para obter
efeitos, supostamente divinos, capazes de modificar seu estado de espírito.
Mais recentemente, o homem conseguiu produzir essas substâncias químicas
de maneira artificial, com potência e eficácia muito mais elevadas.
A utilização clínica de muitas dessas drogas promoveu
avanços significativos no tratamento farmacológico de uma série
de disturbios mentais, incluindo as psicoses e formas patológicas de
depressão e ansiedade. Embora a descoberta e utilização
dessas drogas psicotrópicas na clínica tenham se dado muitas
vezes de forma casual ou empírica, recentemente começamos a
entender como realmente essas drogas funcionam através de pesquisa
experimental com modelos animais (Cruz, Frei & Graeff, 1994; Cruz, Zangrossi,
& Graeff, 1995; Graeff, 1989).
Drogas psicotrópicas alteram a transmissão sináptica,
podendo ser classificadas em duas grandes categorias: drogas que inibem ou
bloqueiam o efeito de neurotransmissores, denominadas de antagonistas, e drogas
que facilitam ou mimetizam o efeito de neurotransmissores, denominadas de
agonistas. Como já visto na seção anterior, um neurônio
integra todos os potenciais pós-sinápticos que chegam aos seus
dendritos e corpo celular para em seguida disparar um potencial de ação.
Esse potencial de ação é transmitido ao longo do axônio
e, ao chegar nos terminais neurais, produz a liberação de neurotransmissor.
Esse neurotransmissor, que é sintetizado pelo próprio neurônio
através da combinação do seu precursor com certas enzimas,
é armazenado nas vesículas sinápticas. Após a
sua liberação pelo neurônio pre-sináptico, o neurotransmissor
liga-se aos receptores localizados no neurônio pós-sináptico,
produzindo o potencial pós-sináptico e, nos autoreceptores localizados
no neurônio pré-sináptico, modulando a liberação
do neurotransmissor. A ação desse neurotransmissor termina com
a sua recaptação pelo neurônio pré-sináptico
ou através da sua destruição por enzimas localizadas
na fenda sináptica.
Vários momentos distintos estão envolvidos no processo de atuação
do neurotransmissor na transmissão sináptica: inicialmente temos
a produção do neurotransmissor, a partir do seu precursor e
de enzimas presentes no corpo celular, seguido pelo seu armazenamento nas
vesículas sinápticas e sua liberação com a chegada
do potencial de ação. Em seguida, ocorre a atuação
do neurotransmissor nos receptores localizados nos neurônios pré
e pós sinápticos, seguidos pelo processo de recaptação
ou destruição. A ação de drogas agonistas ou antagonistas
pode ocorrer em qualquer um desses momentos. Drogas antagonistas podem bloquear
a atividade enzimática que sintetiza o neurotransmissor, destruir as
vesículas que os armazenam, bloquear sua liberação, bloquear
seu efeito nos receptores pós-sinápticos ou estimular os autoreceptores
responsáveis pela modulação da sua liberação.
Por outro lado, drogas agonistas podem servir como precursoras do neurotransmissor,
estimular sua liberação, estimular os receptores localizados
no neurônio pós-sináptico ou bloquear o processo de recaptação
ou destruição do neurotransmissor.
Dessa forma, o efeito das drogas psicotrópicas está ligado ao
processo da transmissão sináptica. É interessante notar
que se o efeito da droga psicotrópica requer a existência desse
processo sináptico então pode-se imaginar, pelo menos a princípio,
que o próprio sistema nervoso é capaz de produzir esse mesmo
efeito (Barbaccia, Costa & Guidotti, 1988). O exemplo clássico
para ilustrar esse raciocínio é o mecanismo de ação
do ópio no sistema nervoso central. O ópio deriva de uma da
planta cujo composto ativo é a morfina[iii]. O seu mecanismo era, até
há alguns anos, desconhecido, e despertou muita curiosidade quando
descobriu-se no cérebro receptores específicos para a morfina
(Pert & Snyder, 1973). Esse fato foi extremamente importante, uma vez
que se existem receptores sensíveis a essa droga de origem vegetal
então o próprio sistema nervoso deveria produzir, substâncias
que pudessem mimetizar o efeito da morfina, pois não haveria sentido
o sistema nervoso ter receptores capazes de reconhecer de modo específico
moléculas exógenas de origem vegetal. Realmente, o neurofarmacologista
Jonh Hughes e associados (Hughes, Smith, Kosterlitz, Fothergill, Morgan &
Morris, 1975) identificaram substâncias de tipo opióide no tecido
neural. Essas substâncias são pequenas cadeias de aminoácidos
(peptídeos) e receberam o nome de encefalinas. Mais tarde, outros peptídeos
maiores, que mimetizavam o efeito da morfina, foram descobertos. Essas substâncias
receberam a nome de endorfinas (Li & Chung, 1976). Hoje sabe-se que essas
substâncias são liberadas em situações de estresse,
tendo a função de reduzir a sensibilidade dolorosa (Fanselow,
Kim, Young, Calcagnetti, DeCola, Helmstetter, & Landeira-Fernandez, 1991;
Helmstetter & Landeira-Fernandez,1990; Landeira-Fernandez, Fanselow, DeCola
& Kim, 1993; Madden, Akil, Patrick & Barchas, 1977; Siegfried, Netto
& Izquierdo, 1987).
Além dessas morfinas endógenas, tem sido observado a existência
de uma série de outros compostos endógenos que através
de receptores específicos são capazes de produzir efeitos de
drogas que são comercializadas na nossa sociedade. Dentre elas destacam-se
os benzodiazepínicos (Braestrup, Schmiechen, Neef, Nielsen & Petersen,
1982) e o tetrahidrocanabinol (THC, composto ativo da maconha). Tais resultados
sugerem que se uma certa droga é capaz de alterar a atividade mental
de um indivíduo, então o próprio indivíduo está
preparado para produzir esses mesmos efeitos, seja através do aumento
(ação agonista) ou da redução (ação
antagonista) da sua própria atividade sináptica.
Essa idéia deriva não só dos casos concretos da morfina,
dos benzodiazepínicos e do THC como também do próprio
mecanismo de ação das drogas psicotrópicas. É
necessário que exista um processo de transmissão sináptica
para que a droga psicotrópica, através de uma interação
nesse processo sináptico, possa produzir seu efeito. Nesse sentido,
vale a pena lembrar que relações sociais - e psicoterapia é
uma forma de interação social - também têm a capacidade
de alterar ou interagir com o processo da transmissão sináptica.
Dessa forma, tanto drogas psicotrópicas como psicoterapias parecem
produzir seus efeitos através de mecanismo semelhantes: alterando o
processo da comunicação sináptica e assim promovendo
alterações na atividade mental. Daí evidências,
como as já apresentadas anteriormente, indicando que tanto a psicoterapia
como a psicofarmacoterapia podem produzir alterações semelhantes
no cérebro de pacientes obsessivos-compulsivos. Mais
interessante é o fato demonstrado pelos psicólogos
clínicos Seymour Fischer e Roger Greenberg (1989) de que placebos
podem produzir efeitos tão fortes e da mesma natureza que as próprias
drogas psicotrópicas. Como apresentado no artigo escrito por
estes psicólogos clínicos e publicado neste volume (Fischer
& Greenberg, 1997), placebos criam dependência, produzem efeitos
tóxicos e levam a um efeito curativo na faixa de 40% a 50%. Obviamente
esse efeito placebo não é mágico. Assim
como drogas psicotrópicas, placebos, através de induções
sociais, alteram o padrão da comunicação neural.
O que é interessante, e não se sabe exatamente quais são
os mecanismos, é que a indução
social através do placebo parece interagir com os mesmos sistemas sinápticos
que são alvos das drogas psicotrópicas. Dessa forma,
quando se administra uma droga psicotrópica, o que realmente está
acontecendo é uma interação entre as alterações
sinápticas produzidas pela relação social entre terapeuta-paciente
e aquelas produzidas pela própria droga. Nesse sentido, não
é surpreendente observar casos, como relatados por Fischer e Greenberg
(1997), onde os efeitos de drogas antipsicóticas são mais eficazes
se o paciente gosta, mais do que desgosta, do médico que as administra.
Nessa mesma linha de pensamento, estudos desenvolvidos pelo neurocientista
Sheapard Siegel e associados (Hinson & Siegel, 1983; Siegel, 1979; Siegel,
Hinson, Krank & McCully, 1982) vêm mostrando que a tolerância
e a "overdose" a certas drogas são determinadas em grande
parte por fatores sociais. Por exemplo, uma certa dose de heroína quando
injetada periodicamente em um determinado contexto social causa apenas um
pequeno efeito. Quando essa mesma droga, no entanto, é injetada em
um contexto totalmente novo, pode levar à morte. Isto se deve ao fato
de que o contexto social onde o indivíduo costuma receber a droga serve
de sinal indicando que a droga será injetada. Como o efeito da droga
é extremamente forte, o sistema nervoso começa a desenvolver
alterações sinápticas em resposta a esses estímulos
ambientais com objetivo de compensar os efeitos da droga. Obviamente, a natureza
dessas respostas compensatórias são exatamente opostas às
respostas produzidas pela droga. Conforme a pessoa vai consumindo a droga
sempre no mesmo contexto social, essas respostas compensatórias endógenas
vão crescendo de tal forma que eventualmente anulam completamente o
efeito natural produzido pela própria droga. Nesse momento observa-se
o fenômeno da tolerância. Em contrapartida, o sujeito, a fim de
superar a tolerância produzida pelos estímulos contextuais, começa
a aumentar a dose. Tudo vai bem até que o sujeito decide injetar a
droga, na dose que está acostumado a usar, em um contexto totalmente
novo. Como nesse novo contexto as respostas endógenas que o protegem
dos efeitos da droga não estão presentes, a droga expressa todo
seu efeito, levando a uma "overdose". Essa interação
droga-contexto explica também a origem da síndrome de abstinência.
As reações observadas durante a síndrome de abstinência
são sempre opostas em relação ao efeito natural da droga.
Isto porque os estímulos ambientais que sinalizam a apresentação
da droga são capazes de ativar essas respostas compensatorias mas a
droga em si não é apresentada.
Nesse sentido não há motivo para se falar em um tipo de dependência
física e um outro tipo de dependência psicológica. Existem
graus diferentes de dependências que são determinados pela potência
da droga e sua interação com a potência da relação
social (O´Brien, Ehrman & Ternes, 1986). Por exemplo, soldados americanos
altamente dependentes de heroína durante a guerra do Vietnã
deixaram de apresentar dependência, ou tiveram uma pequena taxa de reincidência,
quando retornaram a suas residências ao final da guerra (Robins, Davis
& Goodwin, 1974). Seria essa uma forma de dependência física
ou psicológica?
Esses resultados sugerem que relações sociais podem alterar
o funcionamento psicológico da mesma forma que drogas psicotrópicas
produzem seus efeitos. Naturalmente, isso não indica que todo paciente
que busca auxílio psicológico deva ser submetido à psicofarmacoterapia,
ou que pacientes apresentando sérias disfunções mentais
devam ser submetidos imediatamente à psicoterapia. Por exemplo, dentre
outras alterações cerebrais, como alargamento dos ventrículos
cerebrais, pacientes esquizofrênicos apresentam ainda uma hiperatividade
dopaminérgica (sugerindo uma maior quantidade de dopamina e/ou de receptores
pós-sinápticos) e uma hipofrontalidade caracterizada pela diminuição
de fluxo sangüíneo na região frontal do cérebro.
Essa última constatação pode explicar o certo insucesso
das psicoterapias convencionais no tratamento da esquizofrenia (Goldberg &
Gold, 1995; Gur, 1995), pois é exatamente no lobo pré-frontal
que se dá a completa compreensão cognitiva do significado da
palavra - nossos planos e organizações para o futuro. Assim,
é possível que a psicoterapia não funcione no tratamento
da esquizofrenia porque o paciente não tem total compreensão
da palavra. Dada essa situação, não resta dúvida
que drogas psicotrópicas devem ser utilizadas quando necessárias.
No entanto, isto não significa que drogas psicotrópicas sejam
técnicas mais eficazes na prática psicológica. Muito
pelo contrário. Embora o efeito das drogas psicotrópicas seja
muito mais rápido em relação ao das psicoterapias, esse
efeito, por si só, não é duradouro. Drogas psicotrópicas
alteram a transmissão sináptica desde que estejam presentes
no sistema nervoso. Por outro lado, a psicoterapia promove alterações
sinápticas de forma fisiológica levando em consideração
os próprios recursos do sistema nervoso. Como esta reeducação
sináptica leva tempo, é importante que em algumas situações
certos sintomas sejam controlados por meios de drogas. Por outro lado, é
possível que um psicólogo clínico acredite que o uso
de certos psicotrópicos esteja prejudicando o desenvolvimento da psicoterapia.
Neste caso, o direito e o reconhecimento que o psicólogo teria para
prescrevê-las também lhe conferiria autoridade de não
prescrevê-las quando julgasse necessário. O direito que um profissional
tem de prescrever drogas psicotrópicas confere-lhe também o
direito de não prescrevê-las. Finalmente, é plenamente
possível que um paciente, sem grave distúrbio mental, procure
um psicólogo simplesmente para a obtenção de alguns conselhos
de ordem pessoal. A partir da relação terapeuta paciente, é
possível que esse paciente comece a apresentar mudanças na sua
atividade cognitiva e emocional. Embora o psicólogo não tenha
manipulado deliberadamente qualquer variável biológica, ele
sem dúvida promoveu, através da psicoterapia, alterações
no funcionamento neural do paciente. Dessa forma, o principio de ação
da psicoterapia é semelhante ao das drogas psicotrópicas: ambas
têm a capacidade de alterar o funcionamento neural.
É importante esclarecer que tudo o que foi apresentado acima poderia
ser descartado com um simples argumento: se o psicólogo clínico
deseja ter o direito de prescrever drogas psicotrópicas então
ele deve entrar em um curso de medicina e especializar-se em psiquiatria,
uma vez que o psiquiatra tem o direito de prescrevê-las. Este argumento,
que faz lembrar a exclusividade que os médicos possuíam para
se tornarem psicanalistas, possui duas falácias. A primeira, de ordem
teórica, aceita e perpetua a posição dualista onde mente
e corpo são vistos como entidades separadas. Assim, o médico,
junto com a psiquiatria, atuaria no corpo através da prescrição,
enquanto o psicólogo, através de psicoterapia de natureza espiritual,
atuaria na mente. A segunda falácia é de ordem prática
e diz respeito à motivação do estudante. Todos nós
sabemos que os interesses ou as aspirações do estudante de medicina
são complemente diferentes dos interesses ou aspirações
do estudante de psicologia. Embora ambos tenham motivações profissionais
de auxiliar o seu semelhante, o médico tem uma preocupação
com a integridade física do paciente, enquanto o psicólogo tem
uma preocupação com a integridade da sua vida mental. Seria
inviável forçar o estudante de psicologia passar todo um curso
de medicina estudando, de forma minuciosa, nomenclaturas de ossos e músculos,
ou técnicas relacionadas a intervenções cirúrgicas.
Da mesma forma, seria inviável forçar o médico, cujo
objetivo é se tornar um psiquiatra, a passar todo um curso de psicologia
estudando matérias relacionadas com saúde mental e às
diferentes posições históricas e filosóficas,
escolas psicológicas, técnicas e testes relacionados com a atividade
psicológica do sujeito.
Outro possível argumento médico que pode pesar contra o direito
do psicólogo clínico de prescrever drogas psicotrópicas
é que estas, além de produzirem seus efeitos no sistema nervoso,
também causam efeitos, de forma direta ou indireta, em vários
sistemas corporais, tais como o digestivo, o respiratório, o cardiovascular
e o endócrino. Nesse sentido, deve-se destacar que o psicólogo
não está preocupado somente como a atividade mental do sujeito
interage com a origem de um determinado comportamento (atividade somática),
mas também como essa atividade afeta o funcionamento do seu meio interno
(atividade visceral). O exemplo mais concreto para ilustrar essa posição
é o da psicossomática, cujo objetivo é o de estudar como
a atividade mental, mais especificamente o sistema nervoso central, interage
com o funcionamento de outros sistemas corporais (Mello-Filho, 1995; Shorter,
1992; Wartel, 1990). Novamente é importante destacar que o interesse
psicológico por esses sistemas corporais é completamente diferente
do interesse médico. O psicólogo está interessado na
relação do sistema nervoso com esses sistemas corporais, enquanto
o interesse médico é mais específico e diz respeito à
atuação de forma direta e exclusiva sobre esses sistemas. É
justamente essa posição médica que certas vezes parece
prejudicar a própria formação do psiquiatra. Por exemplo,
os psiquiatras Jeffrey Lieberman e John Rush (1996) defendem a idéia
da alteração do treinamento do psiquiatra ao longo do curso
de medicina. Segundo os autores, o corpo de conhecimento relevante para a
formação do psiquiatra não está completamente
de acordo com a formação médica. Os autores escrevem:
"Todos os campos da medicina são definidos pelos seus campos de
conhecimentos básicos e clínicos. Por exemplo, gastroenterologia
é defina pela sua disfunção, seus procedimentos de diagnóstico
(p.ex. endoscopia), procedimentos de tratamento (p.ex. polipectomia) e o seu
corpo de conhecimento (p.ex. etiologia, fisiologia, anatomia e patofisiosologia
da função e disfunção gastrointestinal). A psiquiatria,
em certo sentido, tem sido uma excessão a esse princípio. Isto
se deve, em parte, a origem recente das bases patofisiológicas empiricamente
documentadas dos transtornos psiquiátricos e a transição
teórica de modelos patológicos psicodinâmicos para modelos
bio-psico-sociais e neurobiológicos. É importante notar que
a despeito do corpo substancial de conhecimeto da patofisiologia de muitos
transtornos psiquiátricos, tais como a mania ou a esquizofrenia, não
há menção a transtornos psiquiátricos nos livros
textos de patologia médica. As patologias médicas funcionais
de várias síndromes médicas (p.ex. arritimias cardíacas)
são apresentadas mas as patologias funcionais dos transtornos mentais
não são.". Assim, é interessante que tanto o psiquiatra
melhore sua formação nas áreas relacionadas com os aspectos
socias (as vezes tratadas com descaso) como o psicólogo inclua na sua
formação acadêmica disciplinas da área da neurobiologia.
Assumindo essa perspectiva, não resta dúvida que uma maior ênfase
deve ser dada às disciplinas biológicas já presentes
no curriculum da psicologia e, contrariamente a posição que
alguns insistem em adotar, enriquecê-lo na medida do possível.
O direito de utilizar esse conhecimento é conseqüência da
seriedade com que esse conhecimento é transmitido ao aluno, bem como
da consciência da nossa classe frente a importância de variáveis
biológicas na atividade mental humana. Uma vez esses dois fatores combinados
de forma harmônica, não poderão existir outras razões
que continuem justificando a inobservância do direito do psicólogo
clínico em prescrever drogas psicotrópicas.
CONCLUSÃO
A posição apresentada aqui é que o
biológico e o psicológico fazem parte do mesmo processo. Não
existe atividade psicológica independente de uma atividade biológica
e por conseguinte toda prática psicológica é, na verdade,
uma prática biológica. Esta posição
não implica em uma mudança na prática psicoterápica,
conforme vem sendo tradicionalmente utilizada. O que muda é a forma
de encarar o problema, levando-se em conta fatores biológicos como
variáveis importantes na atividade mental. Esta posição
também não reduz a atividade psicológica a mecanismos
puramente biológicos. A própria natureza da área de estudo
da psicologia impede tal reducionismo. Tal posição, portanto,
não está em desacordo com teorias que sustentam que a personalidade
humana seja fruto das suas relações sociais. Isto, na verdade,
é a própria essência da psicologia. O erro, no entanto,
está em ignorar o fato de que relações sociais direcionam
a formação da personalidade graças ao seu impacto no
desenvolvimento, organização e funcionamento neural do indivíduo.
Esta posição dá vida nova ao profissional da área
da saúde mental e ajusta a sua prática às descobertas
e tendências atuais de se encarar a atividade mental humana, ampliando
seus horizontes, já saturados, com posições filosóficas
que conferem características metafísicas à mente humana
e que atualmente resultam numa limitação da prática e
atuação do psicólogo clínico.
A classe dos psicólogos como um todo, e a dos clínicos em especial,
simplesmente não pode ignorar todo o avanço que a neurociência
vem promovendo nesse final de século. O cérebro começa
hoje a ser descoberto e entendido de forma mais sistemática graças
aos avanços técnicos e à natureza interdisciplinar da
neurociência. Dentre estas descobertas está a enorme importância
do meio ambiente e das relações sociais no desenvolvimento,
organização e funcionamento do sistema nervoso. A prática
psicológica, ou qualquer outra relação social que tenha
um impacto na atividade mental do sujeito, tem a capacidade de promover alterações
na atividade neural desse indivíduo. Essas alterações
estão associadas a mudanças na comunicação neural,
promovendo uma espécie de reeducação sináptica.
Calcado nessa interpretação, é importante que o psicólogo
tenha uma boa formação biológica, principalmente em relação
ao sistema nervoso, visto que nele reside não somente a origem da atividade
mental, mas também o objeto da sua prática. O fato do psicólogo
clínico de hoje não ter sido preparado adequadamente para lidar
com questões relacionadas com a atividade neural não pode servir
como justificativa (consciente ou inconsciente) de que uma preparação
mais arrojada nessa área não seja importante para sua formação
profissional. O psicólogo deve despertar para
a necessidade de incorporar à sua área de ensino o conhecimento
que vem sendo desenvolvido pela neurociência, e em especial, pela psicofarmacologia.
É óbvio que tanto melhor será sua preparação
acadêmica quanto maior for sua possibilidade de aplicação
esse conhecimento. Dessa forma, é necessário que o psicólogo
clínico, além de melhorar sua formação
acadêmica dentro do campo biológico, tenha também o direito
de empregar de forma adequada esse conhecimento, podendo ter, inclusive, o
direito de prescrever drogas psicotrópicas.
Mas antes da conquista desse direito, a nossa classe deve se convencer da
importância de variáveis biológicas na determinação
da atividade mental do sujeito. Hoje não existe essa possibilidade
graças ao curriculum que enfatiza o treinamento acadêmico para
à pesquisa (que nem sempre é devidamente aproveitado) e um treinamento,
talvez um pouco exagerado, na área da filosofia. Interessante é
que o treino na própria clínica, durante o curso de psicologia
é restrito. Isto, na verdade, nos faz levar a uma outra discussão
que transcende o objetivo deste trabalho: a psicologia é uma ciência
básica, tal como a física, química ou biologia, ou uma
ciência aplicada tal como a veterinária, medicina engenharia
ou odontologia? Se realmente a psicologia pretende ser uma ciência aplicada,
deverá, sem dúvida, ajustar seu curriculum à essa necessidade.
Nesse sentido, já existe hoje movimentos demonstrando
o desejo de alterar o curriculum para que o psicólogo
clínico seja devidamente preparado para prescrever drogas psicotrópicas
(Barclay, 1989;. Broskowski, 1995; DeLeon, 1993; 1995; DeLeon, Fox & Graham,
1991; DeLeon, & Wiggins, 1996; Fox, 1994; Fox, Schwelitz & Barclay,
1992; Klein, 1996; Pachman, 1996; Sammons, Sexton & Meridith, 1996; Smyer,
Balter, Egli, Johnson, Kilbey, Leith & Puente, 1993). Por exemplo, em
agosto de 1995 a associação americana de psicologia (APA) decidiu
dar continuidade ao desenvolvimento de modelos curriculares e legislativos
capazes de justificar a obtenção do direito de prescrever drogas
psicotrópicas (Martin, 1995).
Lembre-se, àqueles que são contra essa idéia, que o direito
de prescrever drogas psicotrópicas é também o direito
de não prescrevê-las. Dessa forma, não é nosso
objetivo fazer uma apologia sobre o uso ou não de drogas psicotrópicas
no tratamento de disfunções mentais ou que o psicólogo
clínico deva se transformar numa espécie de psiquiatra que conseguiu
escapar da faculdade de medicina. Pretende-se, na verdade, mostrar ao psicólogo
clínico que sua prática, por mais imaterial que possa parecer,
produz efeitos físicos através da alteração do
funcionamento do tecido neural. A aquisição de conhecimento
neurobiológico é fundamental para que o psicólogo possa
realmente compreender como ocorre essa interação entre cérebro
e meio ambiente e a partir dai, novas técnicas psicoterapeuticas possam
ser desenvolvidas. O direito de utilizar diretamente esse conhecimento relacionado
com o desenvolvimento, organização e funcionamento do sistema
nervoso, através da prescrição de drogas psicotrópicas,
será apenas conseqüência do fortalecimento da sua preparação
acadêmica ao longo do curso de psicologia.
É bem verdade que existem sistemas que determinam uma formação
mais aprofundada do psicólogo clínico. Por exemplo, o sistema
americano, diferentemente do brasileiro, somente habilita o psicólogo
clínico exercer suas funções após o término
do doutorado, quando ele é submetido a uma série de exames impostos
pela sociedade psicológica regional, afim de verificar sua competência
para exercer a função clínica. Dessa forma, o sistema
americano, ao nosso ver, permite uma melhor preparação e seleção
do profissional, o que, por conseqüência, permite ampliar o seu
curriculum acadêmico. O objetivo deste artigo não foi o de tentar
responder se esse sistema deveria ou não ser adotado no Brasil. Nosso
objetivo foi o de mostrar ao psicólogo clínico que sua prática
tem conseqüência direta em tecido neural possivelmente através
dos mesmos mecanismos que drogas psicotrópicas atuam na atividade psicológica.
Assim, deve ser objetivo de um curso de psicologia oferecer uma boa formação
em disciplinas relacionadas com a neurobiologia.
É óbvio que a decisão de enriquecer o curriculum do psicologia
com disciplinas de cunho biológico, que habilite o jovem estudante
de psicologia a pensar de forma mais séria e responsável, seguindo
padrões científicos, é uma decisão extremamente
complexa e envolve outros interesses que não os puramente profissionais.
No entanto, não será a primeira vez que a psicologia irá
lutar por direitos que justifiquem a sua existência como ciência
independente. Somente aqueles com consciência e dedicação
profissional, cujo objetivo está voltado não para os seus interesses
e crenças pessoais, mas sim para o progresso e desenvolvimento da sua
classe, é que saberão, hoje, tomar decisões equilibradas
a fim de que os horizontes do pensamento e da prática psicológica
possam ser ampliados em um futuro próximo.
REFERÊNCIAS
Andrew, R.J. & Brennan, A. (1983). The lateralization of fear behaviour
in the male domestic chick: a developmental study. Animal Behaviour, 31, 1166-1176.
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NOTAS
[i] Este trabalho é dedicado à memória do grande mestre
Octávio Soares Leite. Comentários podem ser enviadas para J.
Landeira-Fernandez, Departamento de Psicologia, PUC/RIO, Rua Marquês
de São Vicente 225, Gávea, 22543-900, Rio de Janeiro, ou por
e-mail para landeira@venus.puc-rio.br. Apoio financeiro do CNPq.
[ii] Embora essa velocidade seja considerada rápida em termos biológicos, ela é lenta se comparada com eventos físicos. Por exemplo, a velocidade da luz no vácuo é de aproximadamente 300.000.000 metros por segundo. Nesse sentido é ilustrativo imaginar que se a velocidade de condução do potencial de ação ao longo do axônio fosse igual à velocidade da luz e desprezando-se o tempo gasto para a formação dos potenciais pós-sinápticos, o ser humano poderia percorrer uma distância equivalente a 10 vezes o trajeto Rio-São Paulo em apenas 1 segundo! Obviamente isso não seria possível dada a limitação de toda a estrutura corporal envolvida nesse comportamento motor. Um exemplo mais próximo da realidade, que não exige a expressão de um comportamento, seria o fato do ser humano ter pensamentos ou associações de idéias extremamente rápidas. Por exemplo, um cálculo matemático, que normalmente leva algumas horas para ser realizado, poderia ser efetuado em apenas alguns milésimos de segundo.
[iii] O nome morfina refere-se ao deus grego dos sonhos Morfeu, graças aos efeitos psicológicos produzidos pelo ópio, relacionados com a euforia e a sonolência.
[iv] Existem tantos neurônios no nosso sistema nervoso quanto estrelas em nossa galáxia.
[v] É interessante notar que toda a relação que o sistema nervoso mantém com o meio social, dando origem assim à atividade mental, se deve simplesmente à capacidade do sistema nervoso transformar estímulos sensoriais, tais como, luzes, sons, tato, gosto, dor etc... em impulsos neurais. Mais importante, o sistema nervoso central pode modular a entrada desses estímulos modificando assim sua realidade física. Vale a pena supor que caso se verifique a existência de fenômenos paranormais, como exemplo a percepção extrassensorial (capacidade de conseguir informação por meios desconhecidos sobre pessoas, objetos ou acontecimentos situados em local distante), então sem dúvida existirão receptores neurais específicos para essa modalidade sensorial.
Fonte: CADERNOS DE PSICOLOGIA.
Universidade Estadual do Rio de Janeiro. 1998, número 1.
http://geocities.yahoo.com.br/materia_pensante/interp_psicobio_landeira.html