Cirrose Hepática – Cid 10: K70.3

É uma doença que danifica células do fígado (células hepáticas), fazendo com que sejam substituídas por tecido cicatricial, com diminuição significativa da quantidade de tecido normal. As cicatrizes formadas limitam o fluxo sangüíneo no fígado e comprometem o funcionamento do órgão: com a perda de tecido normal, ele deixa de desempenhar adequadamente grande parte de suas tarefas, vitais ao organismo. O termo cirrose deriva do termo grego kirrhos, que significa “amarelo cor-de-palha”. Já nos séculos V e VI a.C. especulava-se que o acúmulo de líquido no abdome de alguns doentes pudesse ser conseqüência de uma doença hepática. No século XV, o artista, inventor e cientista Leonardo da Vinci, elaborou detalhados estudos anatômicos da estrutura do fígado normal e das alterações observadas em tal doença. No século XIX, estabeleceu-se a correlação entre as observações clínicas e as alterações verificadas ao exame do fígado de pacientes vitimados pelo mal que, pela primeira vez, recebia a denominação de cirrose. Vários males podem levar ao quadro de cirrose. De maneira geral, todos provocam inflamação no fígado, seguida da formação de cicatrizes. Entre as causas da cirrose, destacam-se particularmente 1- o consumo excessivo e prolongado de bebidas alcoólicas; 2- hepatites virais crônicas (dos tipos B, C e D); 3- certas doenças congênitas ou hereditárias como hemocromatose (acúmulo anormal de ferro no fígado e em outros órgãos), doença de Wilson (acúmulo anormal de cobre no fígado e em outros órgãos), deficiência de alfa 1-antitripsina (deficiência hereditária de uma enzima produzida pelo fígado), glicogenoses (incapacidade do organismo de utilizar adequadamente o açúcar) e hepatite auto-imune (produção de proteínas que agridem e destroem o fígado); 4- obstrução prolongada ou outras doenças dos canais biliares; 5- exposição prolongada a toxinas ambientais; 6- algumas formas de doença cardíaca (cirrose cardíaca); 7- reações a drogas; 8- esquistossomose (doença parasitária, endêmica no Brasil).

Não registrada

O diagnóstico baseia-se no histórico de quadro de hepatite no passado ou de consumo exagerado e prolongado de álcool, associado aos sintomas descritos anteriormente. Os testes laboratoriais (exames de sangue) e as características do fígado ao exame de ultra-som geralmente bastam para que o médico identifique, com razoável segurança, a presença e a severidade da doença. Embora a biópsia hepática (retirada de um pequeno fragmento do fígado para exame microscópico, realizada geralmente sob anestesia local) não seja sempre necessária, tem grande utilidade para distinguir males do fígado menos avançados do que aqueles que produziram cirrose, além de ajudar a diferenciar a cirrose de outras formas de lesão, como as das hepatites virais.

O desenvolvimento da doença é freqüentemente silencioso ou com poucos sinais específicos. De fato, em cerca de 10% dos casos a cirrose é um achado incidental durante cirurgias abdominais ou necropsias. As manifestações clínicas da doença refletem mais o grau de comprometimento da função hepática do que a causa da doença de fígado que resultou na cirrose. Por tudo isso, é comum que se realize o diagnóstico tardiamente. Com freqüência, a primeira manifestação é o aparecimento de complicações extremamente graves, como hemorragias digestivas, graus variáveis de coma e infecções abdominais. Na fase inicial, os principais sinais e sintomas são: fraqueza e fadiga, diminuição do apetite, náusea, perda de peso, aumento do fígado e palma da mão avermelhada. Nos estágios mais avançados, o doente pode apresentar diversos sintomas, entre os quais: icterícia (pele e olhos amarelados), urina de cor amarelo-escuro, “aranhas” vasculares (pequenos novelos de vasos finos e avermelhados na pele) na região do peito, perda de cabelo e de pêlos, coceira generalizada, aumento do volume das mamas no homem, ascite (aumento do volume do abdome ou “água na barriga”), inchaço nas pernas, aumento do baço, diarréia, fezes escuras como piche ou com sangue e coágulos, vômitos com sangue, sangramentos gengivais ou nasais, hematomas, confusão mental, impotência sexual e coma.

Depende do tipo e do estágio da doença. A progressão para a cirrose pode ser interrompida caso se remova a causa básica ? a lesão hepática produzida pela cicatriz é irreversível, mas o componente inflamatório da doença de base pode ser bastante minimizado. Como órgão de grandes dimensões, o fígado é capaz de realizar suas funções vitais apesar de certo grau de lesão e, até determinado limite, também tem capacidade de auto-reparação, com reposição de novas células. Se a causa da cirrose for removida antes da ocorrência de lesões extensas, o prognóstico será mais favorável, com o paciente podendo levar uma vida normal. No entanto, quando se descobre a cirrose tardiamente, as complicações provavelmente já estão instaladas. Menos de 50% dos pacientes que apresentaram alguma complicação grave da cirrose e que continuam bebendo têm sobrevida superior a cinco anos. Em sua maioria, acabam falecendo em decorrência de hemorragias digestivas maciças, infecções incontroláveis e/ou coma profundo. Não há tratamento eficaz para reverter o processo de cirrose já estabelecido. Na verdade, quando o quadro é avançado, o tratamento restringe-se a medidas gerais de suporte, incluindo nutrição adequada e tratamento precoce de eventuais complicações. Controla-se o acúmulo de líquidos por meio da restrição à ingestão de sal e com diuréticos. Em algumas circunstâncias, vale à pena remover grandes quantidades de líquidos no abdome por punção com agulha diretamente através da parede abdominal. Pacientes que apresentam distúrbios no nível de consciência, chamados de encefalopatias, devem seguir uma dieta restrita em carne vermelha, além de tomar antibióticos para controlar a quantidade de bactérias no intestino. A ocorrência de sangramento pelas varizes no esôfago (causa de vômitos com sangue) pode ser minimizada com várias sessões de ?esclerose? dessas veias (procedimento que leva à fibrose) por meio de endoscopia. Outros tratamentos incluem a administração de drogas que reduzem a possibilidade de sangramento e um novo procedimento radiológico chamado TIPS (das iniciais da expressão em inglês transjugular intrahepatic portosystemic shunt), que desvia o fluxo de sangue para longe do fígado. No entanto, nenhuma dessas medidas parece alterar significativamente o curso natural da doença. Para as fases avançadas, o transplante de fígado é a única possibilidade de cura e completa reabilitação. Oferecido em alguns centros médicos brasileiros, esse tratamento pode garantir ótimos índices de sobrevida (em cerca de 80% dos casos), além de proporcionar excelente qualidade de vida ao transplantado, praticamente sem limitações. A experiência com esses pacientes mostra que aqueles que estão bem após o primeiro ano do transplante permanecem assim indefinidamente.

A melhor prevenção das cirroses de origem viral é através da vacinação contra Hepatite B, dos rigorosos critérios de controle do sangue usado em transfusões, do uso de preservativos nas relações sexuais e do uso individualizado de seringas pelos usuários de drogas injetáveis. Destas formas, a cirrose causada pelas hepatites B e C podem ser minimizadas. É necessário o tratamento dos portadores das hepatites crônicas B e C, antes que evoluam para cirrose. E nos portadores de cirrose inicial, para prevenir que cheguem a estágios mais avançados. No caso do álcool, deve-se evitar o seu uso excessivo. É exigida a parada total do seu consumo em indivíduos com hepatite B ou C. Apesar de apenas uma minoria das pessoas que bebem demais terem cirrose, o risco aumenta proporcionalmente à quantidade e ao tempo de consumo. Não é possível precisar que quantidade de álcool causará cirrose em determinada pessoa, entretanto, doses acima de 20g de álcool por dia, o equivalente a duas latas de cerveja ou duas taças de vinho, ou duas doses de destilado, são suficientes para, em certos homens, causar doença. Em mulheres, a metade desta dose, ou seja, 10 gramas de álcool por dia, já pode provocar cirrose. Deve-se lembrar que pessoas aparentemente ?resistentes? ao álcool, ou seja, que ingerem freqüentemente bebidas, porém não ficam embriagadas (bêbadas), podem não ter o fígado tão resistente, e desenvolver cirrose sem nunca terem ficado bêbadas.

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