HPV – Dormindo com o perigo

Apesar do nome pouco conhecido, o vírus HPV está entre os maiores inimigos da saúde da mulher. Sexualmente transmissível, é um dos causadores do câncer do colo do útero. Aprenda a se proteger dessa ameaça.

Uma linda noite romântica pode deixar como recordação mais do que doces lembranças. Se o casal não tiver o cuidado de usar preservativos, além do risco da gravidez indesejada, corre o perigo de contrair os vírus da Aids, hepatite B, herpes e o HPV, a sigla (em inglês) do vírus do papiloma humano. Embora menos conhecido do que os outros, o HPV é capaz de fazer grandes estragos nos órgãos genitais e na saúde geral.

Mais grave do que parece

Segundo cálculos do ginecologista Wagner J. Gonçalves, responsável pelo setor de Oncologia Cirúrgica da Escola Paulista de Medicina da Universidade Federal de São Paulo, entre 15% e 20% das mulheres de classe média com idade entre 20 e 35 anos e vida sexual ativa apresentam o HPV. Na verdade, sua incidência é superior a de outras doenças sexualmente transmissíveis, como a sífilis e a gonorreia, o que faz o médico chamar a atenção para a possibilidade de uma epidemia!

A contaminação ocorre essencialmente durante as relações sexuais, pelo contato genital. A partir daí, o vírus se instala no interior de uma célula da vagina ou da vulva para conseguir sobreviver. Pode ficar ali, em estado latente, sem causar nenhum sintoma, ou então provocar lesões. Os sinais mais característicos são pequenas verrugas que surgem na região dos lábios genitais. Às vezes, ocasiona coceira, corrimento e ardência, além de dor ou desconforto nas relações sexuais.

Mas isso não é o pior. Sua simples presença no interior da célula pode atrapalhar o processo de divisão celular – como você sabe, as células do nosso organismo estão sempre se renovando e, para isso, elas têm que se dividir. Ao prejudicar essa divisão, o HPV pode levar ao aparecimento de células defeituosas que dão origem a lesões pré-cancerosas. Estas, por sua vez, estão sujeitas a evoluir e virar um câncer, invadindo tecidos subjacentes e se espalhando pelo organismo.

Mais de 90% das vítimas de câncer de colo do útero possuem o HPV. Tipo de câncer feminino mais freqüente no Brasil, o tumor de colo uterino é muito comum em países subdesenvolvidos. “Leva anos para uma lesão inicial de HPV se transformar em câncer. Se a mulher fizer os exames preventivos conforme o recomendado, isto é, pelo menos uma vez por ano, o problema pode ser diagnosticado e tratado muito antes de evoluir para quadros mais graves”, assegura a ginecologista e obstetra Beleza Terra.

Prevenir é fácil

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O principal aliado da mulher para se prevenir é o Papanicolaou, que consiste na retirada, com uma espátula, de células da parede vaginal e do colo uterino para serem avaliadas no microscópio. É um exame importante porque permite suspeitar da presença do vírus antes de ele manifestar sintomas ou provocar feridas. Como o HPV contamina células superficiais e intermediárias da pele e da mucosa, eventualmente algumas com tais modificações associadas à presença desse vírus podem ser captadas e identificadas. Nesses casos, o resultado indica uma lesão sugestiva de HPV.

O segundo aliado é a colposcopia, exame que permite observar a superfície do colo uterino com auxílio de um aparelho óptico e identificar pequenas feridas que não são vistas a olho nu. Sempre que uma lesão for encontrada, os especialistas recomendam fazer uma biópsia, a análise microscópica de células recolhidas do local. Se escapa do Papanicolaou, dificilmente o HPV passa pela biópsia.

Diagnosticado a tempo, tem cura

A descoberta do vírus não é motivo para entrar em pânico. Afinal, algumas providências podem impedir a evolução das lesões e sua transformação em câncer. O tratamento é remover as áreas afetadas pelas lesões para estimular a recomposição local com tecido saudável.

Um dos principais métodos para fazer essa descamação da área danificada, de acordo com a dra. Beleza Terra, é a aplicação de substâncias como o ácido metacresolsulfônico, o tricloroacético e a podofilina sobre a região. Em geral, são necessárias quatro ou cinco aplicações com intervalos de uma semana para obter o resultado esperado. Já o fluorouracil, substância muito usada no passado, está sendo abandonado por afetar grandes extensões de pele. Paralelamente, o médico pode receitar pomadas para serem aplicadas em casa pela própria paciente. É bom ficar claro que não há um medicamento específico contra o HPV. Quem barra esse agressor é o sistema imunológico da paciente. Por isso, o sucesso do tratamento depende muito da resistência orgânica. Mas também há casos em que o tratamento demora a surtir efeito, não porque a mulher esteja com baixa resistência imunológica, mas por estar sendo recontaminada pelo parceiro durante a relação sexual.

O outro recurso para tirar as lesões é a cauterização. As células do local da ferida são destruídas por aparelhos que utilizam frio (criocoagulação), calor (diatermocoagulação) ou raios laser de alta frequência. A vantagem da cauterização sobre outros métodos é que, em pequenas áreas, pode ser feita sem anestesia numa única sessão.

Vale a pena acrescentar que não são todos os tipos de HPV que podem disparar as reações que levam ao câncer. Como existem mais de 70 tipos diferentes, os HPV mais perigosos foram classificados em três grupos distintos: baixo risco (6, 11, 42, 43, 44); médio risco (31, 33, 35, 51 e 52) e alto risco (16 e 18). Mas isso não quer dizer que todas as mulheres portadoras desses vírus, inclusive dos tipos que provocam maiores riscos, vão obrigatoriamente desenvolver um câncer. Mesmo nestes casos, as lesões que precedem o tumor podem ser tratadas antes da evolução maligna.

Quando o vírus não chega a provocar lesões, há controvérsias entre os médicos sobre as medidas a serem adotadas. Segundo o dr. Wagner J. Gonçalves, boa parte se limita ao acompanhamento rigoroso da mulher, repetindo os exames a cada seis meses. Outros defendem a prescrição de drogas imunoterápicas, para estimular o sistema imunológico da paciente. E há os que propõem uma descamação suave da vagina para diminuir a quantidade de vírus.

Seja como for, “a mulher com HPV precisa ser orientada para evitar a disseminação do vírus e, mesmo depois de concluído o tratamento, deve ter acompanhamento médico semestral com avaliação clínica, Papanicolaou e colposcopia por cerca de cinco anos, no mínimo”, esclarece o dr. Gonçalves. É que, às vezes, o HPV fica em estado latente, esperando o momento certo, como uma queda de imunidade para atacar novamente. “Passado esse período, se o vírus não se manifestar, aí sim pode-se falar em cura”, garante o ginecologista.

 

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