Saiba o que é TOC – Transtorno Obsessivo Compulsivo

No filme “Melhor Impossível“, o mal-humorado personagem vivido pelo ator Jack Nickolson apresentava uma série de “esquisitices”. Entre elas estava o fato de usar um sabonete apenas uma vez: ao lavar as mãos, por exemplo, ele pegava um novo sabonete e, finda a operação, jogava o produto no lixo. Se no filme, a cena provocava gargalhadas no público, na vida real, “manias” como aquela são motivo de preocupação e, muitas vezes, podem afetar o equilíbrio pessoal e familiar.

Cena 1: O filho, mal acorda, corre para o chuveiro. Uma hora depois, ele ainda está no banho. O pai chama, bate na porta e, depois de muito insistir, consegue que o rapaz pare de se lavar. Um dia, o pai explode. “Porque você não consegue?”, pergunta à beira do desespero. Sem conseguir responder, o filho se irrita e se torna ainda mais compulsivo.

Cena 2: Um homem de 35 anos guarda todas as suas roupas, desde a adolescência. Além de o seu guarda-roupas estar lotado, seu quarto e todos os outros quartos da casa estão abarrotados e insuportáveis. Atendendo a uma sugestão de sua esposa, ele decide se desfazer de uma roupa diariamente, durante um mês. Se, às oito da noite, ele não tiver dado uma roupa à esposa, ela terá permissão para selecionar três peças, das quais ele escolherá uma. Se, meia hora depois, ele ainda não tiver escolhido, ela então o fará.

Os dois casos ilustram situações envolvendo portadores do Transtorno Obsessivo-Compulsivo (TOC) e seus familiares. A diferença é que, enquanto no primeiro caso os dois protagonistas sentem-se impotentes diante de um “mal desconhecido”, no segundo, o casal buscou auxílio profissional. A “negociação” envolvendo as roupas é parte do tratamento.

O QUE É O TOC?

A maioria das pessoas tem um ou mais rituais, tais como: guardar palitos de fósforo usados, catar ciscos no chão de casa, verificar várias vezes se desligou o gás, se fechou janelas e torneiras, etc. No entanto, quando esses comportamentos não são desejados, não conseguem ser controlados e chegam a interferir na vida social e/ou profissional da pessoa, eles deixam de ser apenas traços da personalidade e se transformam em sintomas de um distúrbio obsessivo-compulsivo.

A principal característica do distúrbio é o grau de ansiedade e de convicção de que a compulsão deve ser realizada. Pessoas que sofrem de TOC sentem que não conseguem controlar sua ansiedade ou diminuir seus medos de outra forma que não seja fazendo um determinado ritual, como lavar as mãos até irritar a pele. Além disso, elas não conseguem identificar esse comportamento como um sintoma de doença, considerando-o apenas como um defeito. E é justamente esse desconhecimento a principal causa de sofrimento tanto para o portador do distúrbio como para as pessoas envolvidas. Confusos, sem saber o que fazer, os familiares oscilam entre a cumplicidade, intervenções discretas para tentar interromper o ritual até reações extremadas como a descrita no primeiro exemplo.

Muito sofrimento pode ser evitado se for buscado auxílio profissional, ao surgirem os primeiros sinais de que um determinado hábito está adquirindo contornos compulsivos. Somente um especialista – psiquiatra ou psicólogo clínico – poderá avaliar se um determinado comportamento se caracteriza ou poderá evoluir para o TOC. Uma vez diagnosticado o distúrbio, o seu tratamento envolve medicação, terapia comportamental e educação e apoio familiar.

A UNIÃO FAZ A FORÇA
A participação da família é um importante complemento e fator de peso para o sucesso do tratamento. Uma das formas mais efetivas tem sido a formação de grupos de apoio formado por membros da família e pessoas com TOC. Além de oferecer informações sobre o distúrbio, os grupos permitem a troca de experiências, compartilhar sentimentos e oferecer apoio.

Diversas instituições médicas brasileiras como o Instituto de Psiquiatria da Universidade de São Paulo, a Santa Casa de Misericórdia do Rio de Janeiro, a Escola Paulista de Medicina, a Faculdade de Medicina de Botucatu e o Hospital das Clínicas da Universidade Federal de Pernambuco criaram serviços especializados de pesquisa e tratamento de distúrbios obsessivo-compulsivos. Em 1996, foi criada a AsToc(Associação Brasileira dos Portadores de Síndrome de Tourette, Tiques e Transtorno Obsessivo-Compulsivo).

Contribuindo para divulgar informações sobre o tema, os psiquiatras Fernando Ramos Asbahr, Lígia Montenegro Ito e Ana Regina Castillo, do Ambulatório de Ansiedade na Infância e Adolescência (Ambulansia), do Instituto de Psiquiatria do Hospital das Clínicas da Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo (SP), produziram um texto sobre o transtorno obsessivo-compulsivo na infância e adolescência, do qual reproduzimos alguns trechos.

O TOC é um problema comum?


O TOC, até pouco tempo considerado doença incomum, é uma das doenças psiquiátricas mais frequentes, chegando a atingir até três em cada 100 pessoas em algum momento da vida.

Só adultos têm TOC?

O TOC também atinge crianças e adolescentes, sendo bem mais comum do que se pensava. Aproximadamente uma em cada 200 crianças ou adolescentes sofre do TOC, com predominância entre os meninos. Além disso, 30 a 50% dos adultos com TOC desenvolveram a doença durante a infância.

Em crianças e adolescentes, o TOC é diferente?


O TOC com início na infância ou adolescência atinge ambos os sexos. Diferentemente dos adultos onde não há predominância entre sexos, o TOC em jovens atinge mais os meninos. As obsessões e compulsões não acompanhadas de obsessões entre crianças, mas não entre os adolescentes. Além disso, crianças e, em menor frequência adolescentes, muitas vezes acham que suas obsessões têm sentido e que seus sintomas por medo de passar vergonha ou de serem punidos.

Obsessões comuns incluem medo de se contaminar com germes ou sujeira, medo de que algo ruim aconteça a seus familiares, medo de ferir alguma pessoa ou a si próprio, necessidade de fazer tudo perfeitamente. Compulsões comuns incluem lavagem exagerada das mãos, verificação de portas, interruptores de luz, bico de gás, e repetição excessiva de certas atividades.

O que causa o TOC?

Não há uma única causa comprovada para o TOC. Pesquisas recentes com portadores de TOC indicam problemas na comunicação entre a parte frontal do cérebro (o córtex orbital) e estruturas mais profundas (núcleos da base), mostrando que fatores biológicos estão envolvidos no desenvolvimento da doença. Imagens do cérebro em funcionamento também mostram que circuitos cerebrais envolvidos no TOC voltam à atividade normal naquelas pessoas que melhoram depois do tratamento. Embora esteja claro que níveis reduzidos de serotonina tem um papel no TOC, não há qualquer teste laboratorial específico para o TOC. O diagnóstico é feito com base na avaliação dos sintomas da pessoa.

O TOC é frequentemente acompanhado de muita irritação dos familiares que se queixam de que o filho está com “frescura”, é muito “preguiçoso”, além de sentimento de culpa no paciente. É importante ressaltar que o TOC é uma doença neuro-psiquiátrica e que não há um fator único responsável por tê-la causado. Cabe enfatizar que problemas familiares não causam o TOC, porém a maneira como a família reage aos sintomas pode afetar e intensificar a doença, assim como a doença também pode afetar as relações familiares.

O transtorno obsessivo-compulsivo é herdado?

Pesquisas sugerem que a genética tem seu papel no desenvolvimento da doença em alguns casos. TOC com início da infância tende a se repetir na família, é natureza geral do TOC que parece ser herdada e não os sintomas específicos. Assim, uma criança pode ter rituais de verificação, enquanto sua mãe se lava compulsivamente.

O TOC tem tratamento?

O primeiro passo para o tratamento do TOC refere-se ao esclarecimento educacional ao paciente e sua família a respeito da doença, que pode ser tratada, e não como uma “birra” ou mau hábito do paciente que tem que ser corrigido.

Nos últimos 20 anos houve uma revolução do TOC, se pensarmos que este foi, por muito tempo, considerado um problema psiquiátrico intratável. Embora seja precoce se falar em cura, os resultados terapêuticos obtidos com os tratamentos medicamentosos ou com a terapia cognitivo-comportamental nos mostram que os recursos atuais permitem um grande alívio e melhora significativa da sintomatologia para a grande parte dos casos.

Terapia Cognitivo-Comportamental do TOC

A terapia cognitivo-comportamental é um tratamento prático e breve, em geral de curta duração, que varia de acordo com a gravidade do quadro. A terapia tem objetivo definido, que consiste na redução gradual dos sintomas até sua completa eliminação. Motivação e adesão são fatores importantes para o sucesso, sendo que a auto-aplicação das técnicas são a exposição ao vivo e a prevenção de respostas, que envolvem entrar em contato e permanecer na situação que se tem medo de executar as compulsões, até que o desconforto diminua. Por exemplo, para um paciente com medo de contaminação por sujeira que passa horas tomando banho e lavando as mãos, orienta-se o confronto gradual com a “sujeira”, redução gradual do tempo no banho e permissão para lavar as mãos somente após usar o banheiro e antes das refeições.

Tratamento medicamentoso do TOC

Pesquisas mostram claramente que os inibidores da recaptação da serotonina (IRS) são os medicamentos eficazes no TOC. Os IRS são: clomipramina, sertralina, paroxetina, fluoxetina e citalopram. Estes componentes aumentam a concentração da serotonina, um mensageiro químico localizado no cérebro. Geralmente, em algumas semanas, o início do alívio dos sintomas pode ser observado.

Crianças e adolescentes com TOC devem receber o mais cedo possível algum tipo de tratamento comprovadamente eficaz. Não há um padrão absoluto em relação a qual tipo de tratamento deva ser de primeira escolha, seja a terapia cognitivo-comportamental ou o tratamento medicamentoso ou, ainda, a combinação de ambos (que são complementares entre si). Entretanto, as medicações devem ser utilizadas com muita cautela em crianças pequenas, sendo esse tratamento um recurso para casos onde os sintomas são muito graves ou quando não há boa resposta à terapia cognitivo-comportamental.

O TOC tem cura?

O TOC é uma doença crônica, que persiste por muitos anos ou décadas. Ao longo do curso da doença, as obsessões e compulsões podem variar muito em intensidade: Alternam longos períodos em que esses sintomas são discretos com períodos em que são muito intensos.

Os tratamentos especializados bem executados, apesar de não serem curativos, permitem o alívio de sintomas para a maioria dos pacientes com TOC.


(Revista Cuidados Pela Vida) – recebido de Maria Chelli(LP)

Deixe sua resposta!